Matéria do Módulo

Trabalho

Quando o trabalho sobre o papel da literatura na formação de opinião para intervenção social me foi proposto pela professora Tery o meu primeiro pensamento fez-me estremecer porque vou ter a oportunidade de escrever sobre o meu avô, os meus sentimentos são naturalmente fortes e espero que consiga descrever fielmente a sua paixão pela literatura. O meu avô como qualquer português escrevia sobre tudo sobre ele sobre política e escrevia sobretudo poemas que sabia de cor. Qualquer papel mais sujo menos sujo e ate guardanapos de papel e algumas folhas surripiadamente dos cadernos escolares dos netos serviam para ele escrever o que ia na sua alma, o meu avô era um homem do mar e não era pescador ele transportava sal pelo Tejo abaixo numa fragata, fazia fretes para Lisboa, fretes que não eram fretes mas sim a sua arte a sua verdadeira arte, a literatura para ele não era arte, era cultura e era a sua vaidade, sabia ler e escrever. Ainda existem alguns dos poemas que escreveu, estão guardados junto das revistas da Seara Nova que durante anos e anos e muitas vezes repetidamente ele leu religiosamente e com paixão. Os poemas as revistas da Seara Nova a sua pele queimada pelos anos navegando pelo Tejo acima e pelo Tejo abaixo a sua teimosia o candeeiro a petróleo na mesa da cabeceira no quarto com o vidro queimado são as minhas recordações de Manuel Bernardo um homem do mar que lutou contra o Estado Novo e que por alguns dias não chegou a conhecer a liberdade em Portugal.O meu avô escreveu muitas vezes que José Régio foi o escritor que despertou nele o interesse pela literatura. Nunca percebi bem porquê, José Régio sempre escreveu muito sobre Deus e sobre o Diabo, e isso na minha juventude não me despertava interesse, mas recordo o “Cântico Negro” como um dos poemas preferidos do meu avô e que é realmente um dos poemas mais bonitos que já ouvi mais de uma centena de vezes durante décadas por poetas declamadores políticos e até por dirigentes desportivos como pelo Pinto da Costa, fico triste muito triste como pode um poema sobre os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro, andar por ai na boca de certa gente.

O papel da literatura na formação de opinião para intervenção social

Um dos poemas lidos por mim na apresentação deste trabalho

Cântico negro

José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudónimo literário de José Maria dos Reis

Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. Que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estreia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925)

quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

terça-feira, 15 de Junho de 2010

Papel da literatura na formação de opinião para intervenção social

video

Este filme fez parte da minha apresentação do trabalho o papel da literatura na formação de opinião para intervenção social e tem o titulo a “Cantiga é uma Arma” em homenagem a um grande compositor e musico português que viveu na clandestinidade no estado novo.

Seareiros

A Seara Nova é uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses da época. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. O grupo de intelectuais reunidos em torno do projecto editorial definiram-na como de doutrina e crítica, tendo como objectivo, como se lê no editorial do n.º 1, datado de 15 de Outubro de 1921, ser poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes. Com a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social. Depois da implantação da Ditadura Nacional surgida da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, o grupo da Seara Nova, a que se usa atribuir a designação de seteiros, não obstante a censura e as dificuldades financeiras, assumiu-se como um dos grupos mais activos no combate ideológico contra o salazarismo. Nos seus anos iniciais o projecto reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio, mas também, entre outros, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis e Augusto Casimiro. Após estas vicissitudes e múltiplas entradas e saídas de colaboradores, a revista perdeu o prestígio de outrora e já pouco significa enquanto movimento social actuante. Após a implantação da Ditadura Nacional e da consolidação do subsequente Estado Novo, a Seara Nova transformou-se no principal periódico de oposição democrática ao regime de António de Oliveira Salazar. Ao longo do meio século que se seguiu ao Golpe do 28 de Maio, a revista, através do pensamento dos seus colaboradores, desempenhou um papel central na reflexão e intervenção crítica face ao processo de degenerescência do liberalismo republicano da década de 1920 e depois na oposição à consolidação do Estado Novo na segunda metade da década de 1930, na resistência cívica ao longo dos anos de 1940 e 1950 e na renovação doutrinária da esquerda portuguesa e na sua afirmação política e cultural nos anos de 1960 e 1970 até à queda da ditadura e à subsequente reorganização da vida política e intelectual portuguesa. Ao longo de todo este percurso temporal e político, a acção da Seara Nova foi um dos principais veículos de consolidação da oposição democrática em Portugal. Para além da actividade editorial, o grupo da Seara Nova promoveu colóquios e debates, sempre com o propósito de estudar e investigar a realidade portuguesa e esclarecer o público, mantendo uma assídua e relevante presença na vida cultural portuguesa. Apesar das vicissitudes resultantes da censura em Portugal e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, manteve o entusiasmo e a persistência dos editores e o interesse do público, numa aliança invulgar em Portugal de criatividade, combatividade e pujança ideológica. Houve dois homens que foram muito importantes para mim, dois seareiros dois homens que estiveram presos no Estado Novo por algum tempo, um foi um intelectual muito famoso um filosofo um sábio um mestre da cultura portuguesa Agostinho da Silva outro um homem do povo humilde honesto que escutava a BBC nas noites frias de inverno num rádio a válvulas, Manuel Bernardo meu avô. Eu conheci pessoalmente os ambos seareiros durante muito pouco tempo o que ficou na minha memória foi claramente a personalidade de ambos, nunca conheci ninguém com tanta inteligência humildade e popularidade junta numa só. Homens que conseguiam pensar longe no tempo, homens que acima de tudo amavam o seu povo, a sua língua a sua poesia e a sua liberdade. Deixei-me levar pela amizade e ou pelo amor, neste trabalho a ideia principal é a Seara Nova uma seara nova que apareceu sobretudo para dizer que a tirania dos homens é uma coisa desprezível e que temos obrigação de recusar quer sejamos poetas escritores intelectuais políticos ou homens do povo, o que eu devia estar falando era de livros e da sua importância, a irreverência surge nos livros nas revistas e nos jornais, para muitas pessoas minhas amigas foi sem duvida alguma a revista Orpheu a revista mais importante e que teve um papel de intervenção social causando na crítica do seu tempo muita polémica e contestação, a sua relevância advém de ter, efectivamente, introduzido em Portugal o movimento modernista, associando nesse projecto importantes nomes das letras e das artes do século XX, como Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro, talvez por ter apenas dois números publicados, correspondentes aos primeiros dois trimestres de 1915, sendo o terceiro número cancelado devido a dificuldades de financiamento, que eu considero a revista Seara Nova muito mais importante. Os movimentos literários têm o seu banco de ensaios nas revistas. Estas constituem os seus porta-vozes, as suas tribunas. Exemplos nítidos do que ficou dito, poder-se-iam citar dezenas. Eis, porém, apenas alguns: o romantismo português teve no Panorama Literário e no Toucador, para não referir outros, poderosos amplificadores; o realismo, na Revista de Portugal de Eça de Queirós; o primeiro Modernismo, no Orfeu e no Portugal Futurista; o segundo Modernismo, na Presença; o Neo-Realismo, no Diabo, Sol Nascente e Vértice; o Surrealismo na Prisma. A Presença é efectivamente a revista que sobressai entre muitas outras, não só pela sua continuidade - de 1927 a 1940 saíram 56 números, mas também por uma intenção de reassumir uma modernidade que, à primeira vista, parecia ser a da geração de 1915. Em algumas páginas da Presença poderíamos encontrar indicações que parecem apontar para uma tentativa de se retomar um certo tempo romântico marcado por uma experiência estética mais actual, a qual se reporta tanto à evolução do Simbolismo e, sobretudo, do Decadentismo, como ao aparecimento do Expressionismo. O Simbolismo e o Decadentismo representam aquela renovada, sensibilidade que os presencistas, muitas vezes, souberam assumir dramaticamente numa linha expressionista.

O papel da literatura na formação de opinião para intervenção social

Cravos

Em 1919, um grupo de intelectuais, preocupados com a permanente crise das instituições republicanas, começa a reunir-se com regularidade, analisando as causas e consequências dessa crise e procurando identificar vias para a sua superação. Desse grupo relativamente restrito acabará por surgir, em 1921, um projecto não partidário de intervenção política, que toma corpo através da fundação da Seara Nova, revista de doutrina e crítica que terá como mais destacados mentores nomes como os de Jaime Cortesão, Raul Proença e Câmara Reys e onde virão a colaborar figuras de destaque em vários domínios, como o psicólogo e pedagogo Faria de Vasconcelos, os economistas Ezequiel de Campos e Quirino de Jesus, os escritores Raul Brandão e Aquilino Ribeiro, o filósofo António Sérgio, entre muitos outros. Considerando que a profunda crise da República democrática é fundamentalmente uma crise de mentalidade, a revista propor-se-á a tarefa de reformar a mentalidade do povo português, contribuindo com o seu esforço para a criação de elites (intelectuais, políticas, sindicais) verdadeiramente conscientes do seu papel na construção de uma sociedade diferente ["capaz de um verdadeiro movimento de salvação"]. Na revista encontraremos páginas de luta contra o caprichismo político de muitos homens e formações partidárias da República democrática, contra a corrupção que se instalara em muitos sectores da vida política e social, contra o militarismo que estava na base dos golpes de orientações diversas que se sucederam naqueles anos de instabilidade ["contra todos os movimentos revolucionários e, todavia, defender e definir a grande causa da verdadeira revolução"], contra as ideias tradicionalistas (certas manifestações de romantismo serôdio, o restauracionismo monárquico do Integralismo Lusitano), o parasitismo. A par com estas preocupações de carácter pedagógico, o grupo da Seara manifestava o seu pacifismo e a sua preocupação perante as tensões que se faziam sentir na política europeia, pouco tempo ainda após a sangrenta Primeira Guerra Mundial; no seu 1.º número, que temos vindo a citar, exprimia a sua utopia pacifista no desejo de "contribuir para formar, acima das pátrias, a união de todas as pátrias - uma consciência internacional bastante forte para não permitir novas lutas fratricidas". A preocupação com a formação de elites renovadoras e defensoras da democracia leva os seareiros a participar activamente na constituição e dinamização das Universidades Populares, através de cursos e conferências destinadas a promover a "educação social da nação". O grupo da Seara Nova nunca se assumiu como partido político ou embrião de uma nova formação política. No entanto, participou em certas actividades de carácter partidário, nas quais vislumbrou alguma possibilidade de aplicar as suas doutrinas regeneradoras, e alguns dos seus membros tomaram lugar em governos republicanos, de assaz breve duração, que no seu programa apresentavam tendências para a reforma das instituições; assim foi que António Sérgio, enquanto Ministro da Instrução, introduziu algumas reformas no sistema educativo e Mário de Azevedo Gomes deu os primeiros passos no sentido da efectivação de uma reforma agrária. Preocupados com a preservação do regime republicano, apesar dos vícios que nele reconheciam, os seareiros combateram firmemente os movimentos ou tendências que colocavam o regime em perigo. Foi o caso do Integralismo Lusitano, duramente criticado pelo grande polemista Raul Proença, e das tendências fascistas, cuja perigosidade foi denunciada por diversas formas, incluindo uma Semana de Propaganda Contra o Fascismo, que foi levada a efeito em Março de 1926, poucas semanas antes do golpe dirigido pelo General Gomes da Costa. Após o 28 de Maio e a implantação da Ditadura Militar e durante o longo regime do Estado Novo, a Seara Nova manteria o seu discurso de oposição ao regime instituído, albergando nas suas páginas autores de tendências republicanas diversas e socialistas liberais, que nelas manifestavam a sua oposição quer a Salazar quer às restantes ditaduras europeias (durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente). Em algumas fases da sua existência, colaboraram na revista representantes de outras correntes ideológicas ou orientações políticas (anarquistas e marxistas), que de outro modo não teriam encontrado veículo para as suas ideias e propostas; desta forma, a Seara Nova surgia como uma "frente" aglutinadora da oposição ao regime salazarista. Foi em grande parte a esta postura persistentemente anti-salazarista, característica identificadora por excelência da Seara Nova durante quase meio século, que a revista ficou a dever a irregularidade da sua publicação, pois foi frequentemente alvo dos serviços de Censura, que lhe impunham cortes ou proibições. No entanto, a Seara Nova sobreviveu ao regime salazarista e ao período caetanista e ainda se publicou por algum tempo após o 25 de Abril de 1974, mas não conseguiu já sobreviver à quebra do espírito frentista que a animara durante quase meio século e desapareceu. .

O papel da literatura na formação de opinião para intervenção social

Conclusão do meu trabalho

O papel da literatura na formação de opinião para intervenção social

O 25 de Abril de 1974 teria sido diferente sem a existência de uma revista chamada Seara Nova, penso nisso pensando no meu avô e nos seus simples e bonitos poemas, mas sem o livro do Desassossego não teria existido a Seara Nova e sem a existência de Os Lusíadas não teria existido o Desassossego, Pessoa levou vinte anos para dizer que Deus não existe, hoje muitos leitores de Pessoa acreditam que o livro do Desassossego não existe porque não tem fim nem principio nem meio, possivelmente é um livro que ainda não foi terminado, essas pessoas que se perdem nos fantasmas de Pessoa não percebem que a importância da literatura de Pessoa é a de dizer que Deus não existe realmente, penso que nem o tirano Salazar compreendeu a mensagem de Pessoa, se Fernando Pessoa era varias Pessoas quem os fascistas iam prender, eles iriam se perder no labirinto que é toda a poesia de Pessoa ou de Pessoas ou dos seus heterónimos, quando Pessoa escreve que a Pátria é a minha língua estava dizendo que a Pátria de Pessoa era a poesia os fantasmas ao espelho o rio Tejo as ruas desertas de Lisboa o Martinho da Arcada o vinho do Porto e os cigarros fumados impulsivamente durante horas e horas de escrita, a irreverência intelectual. A morte de Pessoa não foi um suicídio lento, a morte de Fernando Pessoa foi um homicídio, foi a Pátria que começou por amar quem o matou a ele e como a muitos outros homens que não conseguem viver num mundo socialmente feroz, violento e desumano.





(Todas as coisas que a liberdade dá são boas, mas podermos escrever o que queremos é a melhor)

Jorge Bernardo